Criado por Mateus de Lima Diniz, o Todas Por Uma nasceu no ecossistema formativo do CPS e passa a ser divulgado às servidoras da instituição
Foto: CPS
A promoção do bem-estar, da segurança e da qualidade de vida das pessoas que compõem o Centro Paula Souza (CPS) integra, de forma estruturante, a atuação da Coordenadoria de Gestão de Talentos, Desenvolvimento de Pessoas e Bem-Estar (CGTDPBE). Nesse contexto, o enfrentamento à violência contra a mulher tem sido tratado como tema de relevância institucional, especialmente pelos impactos diretos que produz na saúde, na permanência e no desenvolvimento de servidoras e estudantes.
Atenta a esse cenário, a CGTDPBE vem ampliando ações voltadas à conscientização, à disseminação de informações e ao fortalecimento de redes de apoio, em diálogo com políticas públicas estaduais de proteção às mulheres. Entre as iniciativas já promovidas pela instituição está a divulgação do aplicativo SP Mulher Segura, vinculado ao programa SP Por Todas, do Governo do Estado de São Paulo, reforçando o compromisso institucional com a ampliação do acesso a canais oficiais de orientação, acolhimento e proteção.
Paralelamente, a Coordenadoria também busca valorizar soluções desenvolvidas no próprio ecossistema formativo do CPS, reconhecendo o potencial das Etecs e Fatecs como espaços de inovação capazes de responder a desafios sociais contemporâneos. É nesse contexto que ganha destaque o aplicativo Todas Por Uma, desenvolvido pelo ex-aluno Mateus de Lima Diniz, da Etec Prof. Horácio Augusto da Silveira, na Capital. Concebido ainda durante sua formação técnica, o projeto ultrapassou o ambiente escolar e alcançou usuários nos cinco continentes ao integrar tecnologia, segurança e rede de apoio em uma única plataforma.
Entre os principais recursos do aplicativo estão o envio discreto de pedidos de socorro para contatos de confiança previamente cadastrados como “anjos”, o compartilhamento de localização em tempo real a cada 30 segundos e o mapeamento colaborativo de áreas de risco em ruas, estações e linhas de transporte metropolitano. A plataforma também opera com uma interface camuflada, criada para preservar a segurança da usuária em situações de ameaça.
A seguir, em entrevista à CGTDPBE, Mateus relembra o surgimento do projeto, explica o funcionamento do aplicativo e comenta como a experiência construída dentro de uma Etec contribuiu para transformar uma ideia acadêmica em uma ferramenta de alcance internacional.
[CGTDPBE] Como surgiu a ideia do aplicativo Todas Por Uma?
[Mateus] A ideia nasceu a partir da percepção de que muitas mulheres enfrentavam dificuldades para buscar ajuda de forma rápida e segura. Comecei a desenvolver o projeto ainda no período em que estudava na Etec e ele foi evoluindo conforme compreendíamos melhor essa necessidade de aproximar tecnologia e proteção.
[CGTDPBE] Como funciona o aplicativo na prática?
[Mateus] O pedido de socorro pode ser acionado pelo botão principal do aplicativo ou apenas ao balançar o celular. Assim que ativado, o sistema envia alertas automáticos para os “anjos”, que são pessoas de confiança cadastradas previamente pela usuária. A localização é atualizada em tempo real a cada 30 segundos, permitindo o acompanhamento contínuo mesmo durante deslocamentos. O aplicativo também continua funcionando em segundo plano até ser encerrado.
[CGTDPBE] Quais são os principais diferenciais da plataforma?
[Mateus] Além do sistema de emergência discreto, o aplicativo possui um mapeamento colaborativo de áreas de risco em ruas, estações e trilhos do transporte metropolitano. As regiões recebem classificações por cores conforme o volume de ocorrências registradas pelas próprias usuárias. Tudo foi pensado para ampliar o acesso à informação e fortalecer a rede de apoio, sempre preservando a identidade da usuária.
[CGTDPBE] Em que momento você percebeu que o projeto havia ganhado uma dimensão maior?
[Mateus] Isso aconteceu quando começamos a receber relatos de mulheres dizendo que o aplicativo ajudava em situações reais e que as funcionalidades traziam mais sensação de segurança. Com o tempo, a plataforma passou a alcançar usuários de diferentes países, o que mostrou que o problema discutido pelo aplicativo é global.
[CGTDPBE] Como foi representar um projeto nascido dentro de uma Etec em uma iniciativa de alcance internacional?
[Mateus] Foi muito importante para mim. A Etec teve papel fundamental na minha formação e no desenvolvimento do projeto. Muitas competências técnicas e a própria visão de inovação começaram ali. Ver uma iniciativa criada dentro do CPS alcançar os cinco continentes mostra a força da educação pública na transformação social.
[CGTDPBE] Na sua avaliação, qual é o principal desafio no enfrentamento da violência contra a mulher?
[Mateus] A informação ainda é um dos maiores desafios. Muitas mulheres não conseguem identificar determinados tipos de violência ou não sabem como buscar ajuda. Por isso, acredito que tecnologia, conscientização e fortalecimento das redes de apoio precisam caminhar juntos.
[CGTDPBE] O projeto já recebeu reconhecimentos ou premiações?
[Mateus] Sim. Ao longo da trajetória do Todas Por Uma, participei de iniciativas e programas voltados à inovação e ao empreendedorismo social. O aplicativo conquistou reconhecimento nacional, como o prêmio ExpoFavela 2024, e recebeu autorização do Ministério da Educação, em 2025, para compor conteúdos nas publicações do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD). Internacionalmente, recebi o prêmio jovem destaque da Forbes Under 30 na categoria Tecnologia e Inovação, em 2024, e fui o único homem convidado para apresentar o aplicativo no TEDx da Agenda Global Women. Essas experiências ampliaram a visibilidade do projeto e mostraram como uma iniciativa desenvolvida ainda no período de formação em uma Etec pode alcançar impacto social em diferentes países.
[CGTDPBE] Quais são os próximos passos previstos para o aplicativo?
[Mateus] O projeto agora entra em uma nova fase de expansão e desenvolvimento tecnológico. Uma parceria iniciada com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex Brasil) durante o Web Summit Lisboa 2024 — considerado um dos maiores eventos de tecnologia, inovação e empreendedorismo do mundo — permitirá a incorporação do chip NICE ao aplicativo, ampliando suas funcionalidades e fortalecendo os mecanismos de proteção oferecidos às usuárias. O dispositivo, menor do que um grão de arroz, funcionará por aproximação com o celular, sem a necessidade de abrir o aplicativo para o pedido de socorro aos “anjos”. A expectativa é tornar o sistema ainda mais seguro, acessível e eficiente no apoio a mulheres em situação de risco.
[CGTDPBE] Que mensagem você deixa para estudantes das Etecs e Fatecs?
[Mateus] Observem os problemas reais da sociedade. Muitas soluções importantes surgem justamente da tentativa de transformar dificuldades concretas em projetos capazes de impactar vidas. Às vezes, uma ideia que nasce dentro da sala de aula pode alcançar o mundo.